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Papo de Obra
 

Chefe da construção


Engenheiro de obras explica sua rotina e as responsabilidades de gerenciar um canteiro



PERFIL

Fotos: Marcelo Scandaroli

 

 

 

Nome: Alexandre Guimarães Fonseca
Idade: 31
Onde nasceu: São Caetano, São Paulo
Função atual: Engenheiro de obra
Onde trabalha: EZTEC

Por que você escolheu a engenharia?
Eu sempre gostei de pensar em reformas para a casa, desenhar plantas. Acho que se não tivesse optado por engenharia, teria estudado arquitetura. Mas não tive dúvida na hora de esco­lher: eu sabia que queria estudar engenharia civil.

Quando você começou a trabalhar na construção?
Já no segundo ano da faculdade come­cei a estagiar em obras. Depois, passei um tempo trabalhando no desenvolvimento de projetos. Mas o que gosto mesmo de fazer é obra. O trabalho no canteiro é mais dinâmico, e você mescla um pouco do "pé no barro", que é a execução, com o trabalho administrativo, de escritório. Fazendo um pouco de cada, o dia passa mais rápido.

Qual parte você mais gosta?
Eu gosto muito de estar em campo e ver a materialização do projeto. Ver que o que está no papel pode se tornar realidade. O mais gostoso é ver o empreendimento em pé.

O que faz um engenheiro de obra?
Ele executa projetos de engenharia, ou faz projetos se tornarem realidade. É o engenheiro de obra quem gerencia prazos, custos e qualidade. Ele concilia essas três necessidades da melhor forma possível, gerenciando, fiscalizando e intervindo, em caso de anomalias.

O que você chama de anomalias?
São incompatibilidades de projetos. Ao engenheiro de obra cabe tomar decisões que corrijam essas incompatibilidades.

Fotos: Marcelo Scandaroli
Engenheiro acompanha o trabalho das equipes e coordena a execução do projeto, fazendo com que ele saia do papel e se torne realidade
De que forma?

Podemos perceber no canteiro, por exem­plo, que uma tubulação hidráulica passa por um pilar. Isso representa uma incompatibilidade de projeto hidráulico com o projeto estrutural. O engenheiro de obra decide se será necessário mudar a tubulação ou se, num outro caso, a espessura da parede deve ser alterada. Quando a incompatibilidade for estrutural, ele deverá consultar o calculista. Ou seja, em alguns casos ele decide sozinho, em outras, deverá consultar os projetistas. O importante é que saiba decidir qual será a prioridade - às vezes ele posterga serviços, em detrimento de necessidades críticas que se impõem no dia a dia da obra, para que o todo da obra não atrase. Em outras palavras: ele escolhe os caminhos que menos prejudicarão os prazos do cronograma.

Então, basicamente, você cuida da administração de obra, quanto a prazos e custos?
Não é só isso. O engenheiro também administra pessoas. Cabe ao enge­nheiro de obra motivar seus funcionários e prestadores de serviço, para que cumpram prazos e executem suas atividades com qualidade. Em obras de grande porte, é importante ter equipes comprometidas e treinadas. Às vezes eu mesmo treino meu pessoal, em outras, delego funções a eles. A ideia, no entanto, é estabelecer metas de produção a serem atingidas, oferecendo aos subordinados alguma compensação - mesmo que financeira - pelos bons resultados. Administrar pessoas é, sem dúvida, a parte mais difícil do trabalho.

Tem que ser bom de relacionamento interpessoal...
Aqui você aprende a trabalhar com pessoas das mais diversas origens sociais e culturais. Pessoas com formações e níveis de escolaridade diversos. O engenheiro de obra precisa aprender a transitar entre o diálogo técnico e o mais simples, objetivo, pois ele tem de dar ordens e explicar os serviços a pessoas que não têm a mesma formação técnica que ele.

Você disse que treina seu pessoal. Quando e como isso acontece?
O engenheiro de obra também é educador. Quando recebe uma nova equipe numa obra, é preciso treiná-los para que os serviços estejam padronizados segundo a filosofia e as exigências de quali­dade da construtora. Treinar o ope­racional faz parte da nossa busca pela melhor qualidade do produto, com o apri­moramento e profissionalização da mão de obra.

Fotos: Marcelo Scandaroli
Como os treinamentos são feitos?

Há, por exemplo, treinamentos que ensinam quais são os procedimentos da cons­trutora, mostrando a ordenação das etapas da obra, tolerâncias de atraso em relação a prazos e à qualidade do produto final. Esses são treinamentos mais formais. E há também o aprendizado do dia a dia, no canteiro mesmo, para corrigir falhas, ensinar sobre recebimento e cuidados com os materiais, minimização de arremates e retrabalhos, resíduos, conscientização sobre uso de EPI's, ferramentas e outros.

O que é preciso para ser um bom engenheiro?
Primeiro, ter comprometimento e saber assumir responsabilidades. Às vezes­ é preciso se doar até mais do que gostaríamos, mas tudo é feito pela satisfação de fazer o planejamento acontecer. O engenheiro tem de ter boa base técnica e, para ser engenheiro de obra, tem que gostar de lidar com pessoas.

Fotos: Marcelo Scandaroli
Que conselhos você dá a quem pensa em estudar engenharia?

É preciso ter sempre vontade de aprender e evoluir. Aprender com a rotina. E saber que o caminho é longo, difícil, mas possível. Dá para sair do operacional de obra, passar pelo administrativo - sempre estudando -, e se abrir para oportunidades de estágio, como engenheiro, durante o curso de Engenharia.  A maior dificuldade, para quem sai do operacional, é financeira, pois o curso é caro.

Mas não há o apoio das construtoras, para quem já trabalha em canteiro e gosta de estudar?
Como o setor da construção civil está bem ativado, as empresas prestam muita atenção naqueles que se destacam pelos bons serviços, por se interessarem por novos aprendizados, e elas podem até pagar uma parte ou integralmente a mensalidade do curso de engenharia. Tudo dependerá do desempenho do funcionário, e da empresa onde se trabalha. O melhor caminho é, contudo, abrir os olhos e começar a aprender tudo que for possível, com aqueles que já estão no canteiro e que sabem mais do que nós.

 
 
Edição 30|
Julho/2010
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