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Atrás de um sonho


Mestre-de-obras paraguaio veio para o Brasil e conquistou carreira, casa e uma família


Reportagem: Juliana Nakamura


PERFIL

Fotos: Marcelo ScandaroliNome:Francisco Ortega Franco
Idade: 58 anos
Onde nasceu: Caacupé, no Paraguai
Onde mora: São Paulo
Onde trabalha: está há cinco anos na construtora Tarjab,em São Paulo
Função: mestre-de-obras
Em que tipo de obra atua: edifícios residenciais
Maior sonho: fazer faculdade de engenharia ou arquitetura

Quando e como você começou a trabalhar na construção civil?
Há 35 anos deixei minha cidade natal, Caacupé, no Paraguai, em busca de mais oportunidades. Ali as chances de trabalho eram escassas, então decidi vir para São Paulo. Minha intenção era fazer um curso para ser projetista de concreto armado e disputar uma vaga na imensa obra da usina de Itaipu.

Como foi sua adaptação?
Levei seis meses para me acostumar com a língua. Mas fui muito bem recebido e logo eu estava jogando bola com os colegas de serviço.Tive a ajuda de um engenheiro, também paraguaio, que me acolheu nos primeiros dias e me ajudou a conseguir um trabalho. Fui de pedreiro a mestre-deobras em três anos.

Você pensa em voltar para sua terra natal?
Só de férias, mas para viver, não. São Paulo me acolheu e eu sou muito grato a essa cidade, onde eu consegui uma profissão, conquistei minha casa própria e tenho minha família.

Você fez algum curso? Como progrediu tão rápido?
Fiz um curso de projetista de concreto armado que durou um ano. Mas quando terminei, descobri que ganharia melhor se trabalhasse como mestrede- obras. Então, preferi seguir esse caminho. De qualquer forma, esse curso me ajudou bastante a ler e compreender plantas.

Nesses anos dedicados à construção, você passou por algum momento de crise ou dificuldade?
Ao longo da minha carreira, fiquei menos de dois anos desempregado. Nesse período fiz trabalhos como autônomo. Foi difícil, mas nunca pensei em mudar de profissão. Hoje trabalho com carteira registrada.

Em sua opinião, que características são fundamentais em um bom mestre-de-obras?
Antes de tudo é preciso haver realização profissional. A gente não pode trabalhar só para ganhar um salário no final do mês. Tem que ter algo a mais, que é o gosto pelo o que faz.Vejo que para um mestre ser bem-sucedido ele precisa ter também responsabilidade e pontualidade. Essas características, aliás, valem para todas as profissões.

E quais desafios o mestre-deobras precisa enfrentar em seu dia-a-dia?
O mestre é o homem da coluna do meio, a pessoa que tem jogo de cintura. Além disso, é preciso ser muito justo para conquistar o respeito das pessoas. Em uma obra, os problemas que aparecem são causados, em sua maioria, por causa das pessoas, e não das técnicas. Daí a importância de ter alguém que saiba separar o certo do errado.

"Gosto das novas tecnologias, pois elas facilitam o serviço"

Fotos: Marcelo Scandaroli
No almoço de domingo com a esposa, filha e genro
Fotos: Marcelo Scandaroli Fotos: Marcelo Scandaroli
Ortega com a família reunida
O cãozinho beagle e o casal

O que você costuma fazer nos poucos momentos livres?
Gosto de curtir a minha família.Tenho como uma regra: o trabalho deve me ocupar de segunda a sábado. Os domingos são dias de ficar com a família e ir à igreja. Gosto de estar com minha esposa, meus filhos, ir à feira, ao supermercado, passear.

O que você mais gosta em uma obra?
Gosto muito de tecnologia porque ela vem para facilitar o nosso serviço e para deixar a construção mais bonita.

Ao longo dessas décadas, você viu muita coisa mudar na construção?
A maior oferta de revestimentos, como o porcelanato, foi uma mudança importante. Antigamente era preciso importar. Outro exemplo é o projetor de ar comprimido para revestimento de argamassa, que permitiu dar maior qualidade e produtividade à execução de fachadas. Isso praticamente aposentou a colher de pedreiro e exigiu disposição dos profissionais para aceitar mudanças. Você pode notar que aqueles que não estão abertos à evolução e continuam apegados à sua colher de pedreiro, não estão empregados em grandes construtoras.

Manter-se atualizado é, portanto, fundamental?
Certamente. Eu, por exemplo, procuro ir sempre às feiras de construção. Também leio revistas da área, que dão informações sobre o que está acontecendo e as novidades.

Qual é o seu maior sonho?
Meu sonho é fazer uma faculdade, de engenharia ou de arquitetura. Restam apenas cinco anos para eu me aposentar. Quando isso acontecer, vou correr atrás desse sonho.

Você tem grandes chances de ir bem na faculdade, porque já conhece muita coisa de construção, não é mesmo?
Com tanto tempo de obra a gente aprende muita coisa sim, mas sempre há o que aprender.A cada dia descobrimos coisas novas e temos que estar abertos a elas. Alguns engenheiros me disseram que eu já daria um ótimo estagiário. Daqui a alguns anos, eu te conto.

 
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Edição 13
Outubro/2007

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